quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A Menina (que já foi a) mais feia do mundo

Escrevi este post para um blog que gosto muito: o Não sou exposição, um blog que questiona os valores e "verdades" da sociedade atual. Acho que é um bom jeito de começar por aqui, me apresentando! Espero que gostem!

Vou começar este texto revelando um segredo: essa menina do título fui eu. Fui quem eu pensei ser por muitos anos. Tinha uns sete anos quando um menino me disse: você e a fulana são as meninas mais feias da sala. Logo a fulana? Aquela que sofria tanto bullying? Realmente eu era horrível.

E foi assim que vivi até os 19 anos, sendo a menina mais feia do mundo. Não tinha namorados, afinal quem iria se interessar pela menina mais feia do mundo? E aqueles que se interessavam com certeza tinham algum problema, deviam estar “sobrando” como aquela menina...

Apesar de ser algo escancarado, eu vivi anos tentando esconder que eu era esse monstro. Escondia dos outros e escondia de mim mesma. Na adolescência o principal sintoma da feiura escondida foi a relação com o meu corpo. Foram anos de dietas e de um ciclo tortuoso de compulsão alimentar (afinal uma garota tão feia merecia ser punida), ganho de peso, culpa... Fiz todos os tipos de dieta: dieta dos pontos, dietas com nutricionistas e endocrinologistas, dieta do carboidrato, dieta da sopa, dietas de revista e todas as quais tive acesso durante esse tempo.

Algumas vezes emagrecia muito, algumas vezes emagrecia pouco, algumas vezes engordava, mas o sentimento continuava o mesmo. Os quilos a mais ou a menos não sumiam com o sentimento forte de rejeição e feiura que estavam escondidos e enterrados lá no fundo. Nunca conseguia me manter por muito tempo magra, pois além de estar acima do peso eu ainda não tinha FORÇA DE VONTADE, acreditam? Ou pelo menos era isso que eu ouvia de nutricionistas (hoje sei como essa fala é uma atitude irresponsável desses profissionais, apesar de muito comum) e de pessoas leigas (quero dizer, atualmente todo mundo é especialista, né?).

Na minha casa sempre fui muito amada e muito cuidada. Entretanto, infelizmente, minha mãe, que ficava arrasada por me ver sofrendo quando eu ganhava uns quilinhos, também não sabia exatamente como me ajudar. Ela tentou que eu fizesse terapia algumas vezes, porque ela enxergava meu sofrimento. Entretanto, assim como eu, acho que ela também acreditava que se eu emagrecesse um pouquinho (nunca fui obesa – então parecia ser fácil) eu seria mais feliz. Era um sofrimento enorme que ninguém percebia, pois era silencioso. Eu não era obesa, tinha vários amigos, era excelente aluna e tinha a famosa “força de vontade” para tudo, menos para perder peso.

Essa história começou a mudar quando eu estava na faculdade. Era uma segunda-feira e, como em quase todas as segundas-feiras, eu estava determinada a começar uma nova dieta. Comentei com uma amiga o fato e ela disse: “vou te dar um contato ótimo!”. Eu me animei prontamente com a indicação, mesmo sem saber qual era a linha desse profissional. Eu adorava novos métodos, novos contatos, novas esperanças.

O que eu não ainda sabia naquela segunda-feira era que pela primeira vez eu tinha em mãos um contato que me transformaria por completo. O nome dela é Dra Márcia Parizzi. Uma médica pediatra e nutróloga. Um ser humano sensível, que luta diariamente contra os conceitos equivocados que são ampla e massivamente espalhados por aí quando o assunto é emagrecimento.

Essa médica nunca me passou dieta. Foi um processo longo e árduo, afinal era preciso desconstruir conceitos que estavam há anos enraizados e que infelizmente são senso comum no mundo em que vivemos.  Entretanto, posso garantir, foi um processo LIBERTADOR.

Comecei a tratar o problema como SINTOMA e não como CAUSA. Fui aos poucos entendendo o que estava por trás daquela vontade enorme de ser magra. E foi só quando parei de fazer dieta que emagreci – mesmo “sem força de vontade”, pasmem! Emagreci de verdade, emagreci com o coração e não somente com a mente que controla como uma policia as nossas vontades e nossa necessidade tão instintiva que é a fome.

O que eu deveria comer, o tamanho das porções, os intervalos entre refeições, enfim, as MINHAS necessidades, não estavam em um livro, uma revista ou nas orientações de alguém. Estavam dentro de mim. O eu precisava era resgatar, com muita paciência, essas noções que estavam adormecidas dentro de mim, asfixiadas por tantos equívocos.

Tive recaídas? Claro, algumas vezes quase caí na tentação de fazer dieta J. Mas uma vez liberta, sempre enxerguei que esse não era o caminho.

Um fato curioso é que antes de todo esse processo eu acreditava que para ser feliz era necessário emagrecer, ter um namorado, dentre outras coisas... O que aconteceu foi: quando eu fui feliz eu emagreci e comecei a namorar (agora tenho um marido maravilhoso que ama cada pedacinho de mim J). A ordem era inversa e ninguém nunca tinha me contado. Eu precisava primeiro me acolher, me amar, e ser feliz como eu era, era preciso tratar as causas para erradicar os sintomas.

Para finalizar deixo alguns ensinamentos da Dra-anjo que me marcaram e me ajudaram na transformação:

  • Ninguém emagrece por ter conhecimento de como se emagrece, emagrecemos com nossos sentimentos

  • Dieta é uma das melhores práticas para quem quer se punir. Quem consegue seguir uma dieta sem falhas?

  • A obesidade/sobrepeso e anorexia não são as causas e sim sintomas de problemas. É preciso tratar as causas. Infelizmente, os profissionais gostam de colocar as pessoas em caixinhas (é mais fácil), mas nesse caso as pessoas não cabem nessas caixinhas e é bem aí que está o perigo

  • Para tratar tais problemas as pessoas precisam se sentir acolhidas e confiar no profissional. Amedrontá-las e dizer que elas não possuem força de vontade só irá agravar o quadro a longo prazo

27 comentários:

  1. Muito interessante Raquel. Provavelmente vou utilizar junto dos meus alunos este texto. Sou Diretor de Turma e bem sei como a questão que abordas tão bem e na primeira pessoa, é a mesma que atormenta tanta gente, nomeadamente desde a puberdade. E que, se se instala nessa idade, só com muito trabalho pessoal se ultrapassa mais tarde. Obrigado pela generosidade de falares assim de ti.

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  2. Que emoção por ler sua descoberta da Raquel Menina Linda! Bela história, Quel! Um grande beijo,
    Raquel

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  3. Eu choro, desde a primeira vez, sempre que leio esse seu relato! Você é uma mulher sensível, linda e muiiiito amada!beijo, Carol

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  4. Raquel não imaginava que vc tivesse passado por tais conflitos, o texto foi muito bem escrito e vc é um exemplo a ser seguido. Beijos e vou continuar acompanhando o blog.

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  5. Maria Cristina Campos Higino8 de setembro de 2014 13:31

    Quel. você NUNCA foi a menina mais feia e é a mulher mais maravilhosa do mundo por seu carater e princípios, por sua simplicidade e sofisticação simultâneas e por ser doce e inteligente! Parabéns e sucesso nesse novo desafio!!!!

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    1. Você que é linda demais!!! obrigada por todo carinho de sempre!

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  6. muito legal Raquel! eu acredito muito no poder do auto-conhecimento pra mudar tudo na nossa vida. a partir do momento que vc olha pra dentro, se analisa e se entende, deixa de lado o mundo de fantasias e caixas que os outros e nós mesmo criamos. podemos, a partir de então, começar o processo de mudança. parece que foi o que aconteceu. bacana vc dividir sua experiência!
    saudades de vc!

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    1. Muito obrigada pelas palavras Ricardo! Penso exatamente como você. Não é fácil nos encaramos de frente, entretanto, acredito ser a única maneira possível de buscar a felicidade! Uma busca contínua, mas que precisa encontrar as condições mínimas favoráveis para acontecer...Saudades também!

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  7. Adorei o texto Raquel.
    Na verdade vira e mexe fico emocionada com as suas legendas no instagram, já imaginava esse talento!
    Parabéns pelo talento, pela coragem, transparencia, pelo blog e pela pessoa que você é!
    Beijocas

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    1. Oi Eliza! Obrigada pelas palavras tão doces e queridas :) saudades de você!!!

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  8. Parabéns, Quel! Texto inteligente e verdadeiro. Que este blog seja um sucesso e cheio de relatos interessantes. Prima-Amiga-Escritora LINDA (agora e antes!).
    Beijos, Ana Flávia

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    1. Ana, te amo tanto... mas tanto que nem tem como explicar :) obrigada por tudo, sempre!
      Beijos!!!

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  9. Raquel, sua coragem e determinação é admirável, é muito difícil expormos nossos medos ou frustrações, e você com muita sutileza conseguiu faze-lo, tenha certeza que este seu relato servirá de auto ajuda para quem vive ou já viveu alguma frustração, medo e ao contrário de você não conseguiu colocar para fora. As pessoas fica numa zona de conforto fechada para seu mundo, onde só ela sabe o que a frusta ou faz mal e usa esta zona de conforto para se esconder porque não tem coragem de enfrentar sua fraqueza. Minha admiração por você cresceu e muito e tenho certeza que seu relato fará muito bem as pessoas, mesmo que elas continuem no anonimato, mas sabem, que alguém venceu esta muralha e que há sim uma luz no fim do tunel, parabéns beijos, Vilma

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  10. Muito obrigada pelas palavras Vilma. Foi justamente, por pensar que poderia ajudar outras pessoas que resolvi escrever essa reflexão! Beijos e obrigada novamente :)

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  11. Ana Luisa Goncalves18 de setembro de 2014 17:27

    Raquel!!

    Amei o texto parabens pela iniciativa e coragem! O mais importante e a gente ser feliz com a gente mesma! Te amo! beijos

    Ana

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    1. Muito obrigada Aninha! Também te amo muito! beijos com saudades

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  12. Quel Parabens!!! Super bem escrito!! É maravilhoso este processo de auto descobrimento. É quando você percebe que não precisa mudar nada físico em você, para sentir que é uma mulher incrivel!! Como você disse, é neste momento que as coisas boas aparecem em nossa vida. Nada como se sentir bem consigo mesmo.
    Muitas pessoas passam por isso.. Admiro você pela inciativa e coragem de nos contar sua história!! beijinhos

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    1. Que bom que você gostou Chris! Obrigada pelo carinho! beijos

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  13. Raquel, puxa adorei! Tb fui "a mais feia" por muitos anos! "Fui"! Ainda bem que isso ficou no passado! Adoro meu presente! Aprendi e aprendo todos os dias a me dar valor e a me amar, pois se a gente não se ama, como podemos amar o outro? Bjs e fique com Deus! Fabiana

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  14. Muito Obrigada Fabi! Também aprendo todos os dias a me amar :)

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  15. Raquel chorei ao ler seu texto, porque somos tão cruéis conosco? você nunca foi feia e nem gorda. Você tem razão eram seus sentimentos. Que bom que você encontrou um anjo. Torço agora para você ser anjo para muita gente. Bjs. Ivone

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  16. Oi Raquel,
    Só hj tomei ,conhecimento do seu blog e adorei este relato, sensível, generoso e surpreendente.
    Aprender a nos amar nem sempre é fácil.
    Vc é uma pessoa especial, de agora em diante vc tem uma leitora fiel.
    Bj
    Valéria

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    1. Muito obrigada Valéria!
      Saudades de vc!
      Beijos

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