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quarta-feira, 4 de março de 2015

Que a rotina vire felicidade

Um dia como outro qualquer...
Foto:Freeimages.com
Um dia desses, no casamento de uma amiga querida, o celebrante fez a seguinte reflexão direcionada aos noivos (não exatamente com essas palavras, claro): “Aproveitem muito o dia de hoje, com certeza será um dia que vocês guardarão para sempre no coração e na memória. Dias como esses são muito importantes, mas não se esqueçam, a nossa vida acontece na rotina, nos dias comuns”.

Algo que parece tão óbvio me fez pensar como passamos o tempo todo em busca de acontecimentos incríveis e singulares e, dado isso, acabamos nos esquecendo de viver a rotina, o comum. Atualmente noto que há um grande medo assolando o ser humano, o de ser uma pessoa comum. Ser um profissional comum, ter uma família padrão, alegrias e tristezas normais...

É necessário viver momentos incríveis e realizar proezas a todo momento, caso contrário para que serve essa vida? As redes sociais, com toda certeza, agravam esse fenômeno. Como a minha volta todos amam o trabalho, fazem a viagem do sonho, têm uma família perfeita, são emocionalmente equilibrados e só vivem dias espetaculares – mesmo que para isso glamourizem a rotina ou até mesmo o sofrimento – quem seria eu para ousar viver uma vida comum? Provavelmente, um fracassado.

Reconheço que é delicioso e até mesmo difícil de explicar o que sentimos quando nos casamos, fazemos a viagem dos sonhos, somos promovidos no trabalho ou alcançamos qualquer feito importante para nós. Trata-se de uma mistura de bons sentimentos para qual não existe nome. Entretanto, isso não é o que acontece na maior parte dos nossos dias, aqueles corriqueiros, de lutas e pequenas conquistas. A vida real é feita da rotina, da correria do dia a dia, dos momentos de tristeza e mau humor, das angústias acerca de nossas escolhas, e claro, das “pequenas grandes alegrias”. Alegrias essas que nos arrancam um sorriso verdadeiro e, por milésimos de segundo, nos fazem esquecer da felicidade do futuro. Pode ser um pedacinho bonito do caminho até trabalho, um encontro com as amigas, um elogio sincero ou um beijo carinhoso de boa noite.

Eu almejo sim batalhar pelos meus sonhos e viver intensamente o contentamento de suas realizações. Pois como o celebrante falou, esses instantes de glória são importantes, e, muitas vezes, inesquecíveis. Contudo, espero ter sempre a consciência do que a vida realmente é feita. Não quero sentir angústia ao final de cada um dos inúmeros dias comuns, nem estar sempre pensando no futuro ou ainda necessitar viver eventos magníficos para me sentir plena. Quero ousar ser feliz nos dias ordinários, em que nada e, ao mesmo tempo, tudo acontece. E quero além disso atrever-me a me sentir completa e em paz com essa felicidade.

Há uma frase por aí que diz: “que a felicidade vire rotina” acho que prefiro a versão: “que a rotina vire felicidade”.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Acima do bem e do mal - Por que julgamos tanto?

Foto: reprodução web
No bar, num papo despretensioso com as amigas, vem à tona a noticia acerca de uma blogueira que se separou do marido e começou a ser condenada cruelmente por alguns e defendida veementemente por outros que a seguem.

A discussão voltou-se então para como alguém se sente no direito de julgar uma relação que não deu certo (e uma suposta traição)? A começar que ninguém sabe realmente o que aconteceu, e mesmo que soubessem, fossem pessoas próximas ao casal (o que claramente não era o caso nos comentários de quem se sentia no direito e na necessidade de expressar sua opinião), só os dois sabem o que se passava entre quatro paredes e, mais ainda, cabe apenas a cada um deles compreender o que carregam dentro de si, nos pensamentos e no coração.

Eu sempre fico abismada com a facilidade e autoridade que temos em julgar os outros. É curioso como julgamos tudo o tempo todo. Julgamos a aparência, as escolhas profissionais, os amores, a religião... Dotados de uma verdade suprema, nos colocamos acima do bem e do mal e imprimimos nossa sentença. Temos a convicção que possuímos as informações necessárias e suficientes para condenar algo ou alguém não importando se fazemos isso com a nossa régua, com o nosso ponto de vista, com o nosso coração.

Um dia desses li uma postagem no facebook em que a pessoa julgava a fé de outras pessoas (não se tratava dos aspectos práticos da religião, era a fé mesmo, a proximidade das pessoas com Deus). Passei então a imaginar o medidor de fé. Provavelmente era um quadro em que mostra os pontos que você acumulou por sua fé, tudo isso controlado por São Pedro e revisado semanalmente por Deus. Tal publicação ainda vinha acompanhada de um: “não estou falando que sou perfeito, mas quando erro, reconheço”. Isso é óbvio, não? Uma vez que eu mesmo que faço as regras, eu sei exatamente quando errei. Erros e acertos comportamentais se tornam verdades absolutas, sendo uma tarefa fácil decidir quem é culpado e quem é inocente. Entretanto, quando EU sou o réu, aí a história é outra, me apego a algumas jurisprudências e dou uma ajustadinha nas regras, afinal o meu caso era diferente, existem os motivos “a “ e “b”, que ninguém conhece, mas eu sei bem quais são ...

Talvez o prazer em julgar seja o de por alguns instantes nos sentirmos Deus, nos sentirmos superior ao outro, e em um mundo onde se procura o tempo todo ser melhor para postar algo no Instagram e causar inveja (seja por qual motivo for), esses momentos de superioridade são de extremo valor. Talvez ainda, num tempo que carregamos dentro de nós a exigência de sermos perfeitos, seja essa uma forma de nos aliviarmos de tanta culpa e pressão. Quando apontamos o dedo para alguém, esse alguém também não é perfeito, e pelo menos em alguns momentos ou características podemos nos orgulhar de sermos melhores que ele...

E tem a cereja do bolo, depois de sentir esse gostinho de estar um andar acima de algo ou alguém, é possível POSTAR uma frase de efeito dessas que inundam nossa visão todos os dias. É só lançar mão de algo do tipo “posso não ser perfeito, mas pelo menos não sou hipócrita” e correr para o abraço.

A famosa empatia (segundo o Aurélio, Empatia - s.f. Psicologia e Filosofia Faculdade de perceber de que modo uma pessoa pensa ou sente), não é algo difícil, é simplesmente IMPOSSÍVEL. Mesmo que nos esforcemos para pensar como o outro, e sentir da mesma maneira, será uma missão fadada ao fracasso. Os pensamentos e sentimentos do outro que, por sua vez irão refletir diretamente em suas atitudes, são moldados por uma bagagem ÚNICA, INDIVIDUAL e não podem ser reproduzidos em outro alguém. Brené Brown se refere à empatia em seu livro (A Coragem de ser imperfeito) como a capacidade de se conectar, de se solidarizar com o outro. Gosto bem mais desse conceito, pois se trata do oposto do julgamento ou juízo de valor.
Deixemos, portanto, o julgamento para os cidadãos “investido de autoridade pública com o poder para exercer a atividade jurisdicional” - definição da wikipedia para juiz. Fiquemos nós com a missão de conhecer, amar, se surpreender com o ser humano...
“O juízo moral, da mesma forma que o religioso, corresponde a um grau de ignorância ao qual ainda falta o conceito do real, a distinção entre o real e o imaginário Friedrich Nietzsche, in "Crepúsculo dos Ídolos"
“Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las” Madre Teresa de Calcutá.